O legado Bowie

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Acordar com a notícia da morte de um ídolo está no check list de como estragar o seu dia. Mas a vida aqui na Terra continua e, apesar da tristeza, só consigo pensar no que David Bowie fez em vida. No efeito por vezes catártico que algumas de suas canções ainda provocam. Na sua imagem, ou nas suas imagens cada vez mais icônicas.

Bowie2Esse londrino de um olho de cada cor, um cara que foi muitos em um só, ou justamente o contrário, um camaleão como ficou conhecido, David Bowie foi, é e será único. Está no panteão dos artistas que moldaram uma geração, ou várias delas. Penso no Bowie de terno azul turquesa de “Life on Mars”; no ser imobilizado, com um grito preso na garganta de “Heroes”; no obscurantismo da sua fase Berlim; em Ziggy Stardust; na sua interpretação de “O Homem Elefante” nos palcos da Broadway e Londres; na sua androginia da capa de “The Man Who Sold the World”; no homem que caiu na Terra; no soulman de “Golden Years”; no vampiro de “Fome de Viver”; no mago quase sádico de “Labirinto”; no soldado prisioneiro num calor escaldante de “Furyo, em Nome da Honra”; em Major Tom da trilogia musical de “Space Oddity”, “Ashes to Ashes” e “Starman”; no platinado de “Let’s Dance” e “Modern Love”; na sua indefectível elegância; no olhar sério de “Valentine Day’s”; e agora em “Lazarus”.

Bowie3Ouvindo “Blackstar”, seu último disco, o 25º, uma das primeiras coisas que senti foi um sentido de unidade, não apenas no disco em si, mas no planeta. Fiquei imaginando quantos milhares de pessoas estariam ouvindo esse mesmo disco ao mesmo tempo. Era o mesmo comentário que meu amigo Marcelo Gross, guitarrista da Cachorro Grande fazia hoje, após todos sabermos da sua morte. Ontem, domingo, assisti, por acaso, um filme chamado “Sou Eu”, do Tom Shadyac. Uma busca para tentar explicar o que está acontecendo no mundo. Isso em 2010. Um passagem do filme me fez ver que sentimento era aquele da audição do disco do Bowie. Era de que, não importa o que façamos, de que somos ou queremos ser: estamos todos conectados, tudo é uma coisa só. Aquela audição simultânea em 8 de janeiro fez isso: nos conectou ao Bowie e ele a nós. E o que há de tão especial nesse disco? Absolutamente nada que não seja Bowie sendo ele mesmo, cometendo um álbum vigoroso, denso, bem produzido e que, infelizmente, será lembrado como seu último trabalho em vida. Bowie ainda era um dos poucos artistas que realmente tinham algo a dizer, que dispensava fórmulas fáceis em sua música. Quis o destino que talvez sua ultima imagem seja de alguém que volta da morte, que a vence. Aqui, neste plano, um câncer o levou. No da arte, Bowie venceu todas as batalhas.

No dia do seu aniversário, 8 de janeiro, vesti umas das muitas camisetas com seu rosto que tenho. Neste 11 de janeiro, visto novamente em sua memória. Jamais haverá outro David Robert Jones, jamais haverá outro David Bowie.

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Sobre Daniel Soares

Jornalista e músico diletante. Fã de motocicletas e guitarras
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