Um príncipe que era rei

Prince

Quando morre um ídolo, nossa alma se encharca de seus feitos como uma forma de lhe dar mais atenção e até, quem sabe, atenuar o sofrimento. Na música, discos e mais discos passam a rodar na sua cabeça num loop eterno. Quando recebi neste 21 de abril a notícia da morte do cantor, guitarrista e gênio Prince, só pude pensar: “Um ano em que morrem David Bowie e Prince é para ser definitivamente esquecido”.

Prince foi encontrado morto em sua residência e as causas da morte ainda não estão esclarecidas. Em turnê com uma proposta intimista, somente ao piano, Prince chegou a passar mal no último dia 15 e ser levado às pressas a um hospital nos EUA.

E é tão difícil receber uma notícia assim de ídolo que sempre nos surpreendia. Aos 57 anos, nascido Prince Rogers Nelson, o multinstrumentista era a marca do “som de Minneapolis”, uma fusão sem limites entre o soul, o pop, guitarras pesadas e funk 70. Tudo isso desembocava naquele  ser andrógino, sexualizado ao extremo, de 1,58 de altura, salto alto e dono de um falsete inimitável.

Não vou fazer um relato biográfico do Prince. Os números da sua carreira são estratosféricos. Uma vez vi ele dizer numa entrevista, quando já passava dos 25 álbuns na carreira, que tinha, pelo menos, 400 músicas que nunca foram lançadas. Verdade ou não, deve dar para contar em uma só mão os artistas que conseguem lançar quatro discos num mesmo ano. Prince fez isso. Ou um álbum triplo. Prince fez também. Fazer filmes onde ele é a estrela, o autor das músicas  e o argumento. Prince fez isso em “Purple Rain”, que lhe rendeu um Oscar, em “Graffiti Bridge” e “Under the Cherry Moon”. Ou manter tantos projetos paralelos e ainda arranjar tempo para dar uma canja num show-tributo a George Harrison (what???). E, ainda no início de carreira, poder dividir o palco com James Brown e Michael Jackson.

Mesmo sendo um hitmaker, Prince se dedicava com afinco aos arranjos mais elaborados, em canções conceituais e em shows milimetricamente planejados, como a tour de “Sign ‘o the Times”, em 1987, e o “Rave UN2 The Year 2000”, que foi transmitido em 31 de dezembro de 1999 nos EUA, e que contou com as participações especiais de Lenny Kravitiz, George Clinton e Nika Costa (sim, aquela mesma). Não há quem não dance ao som de “Kiss”, de “When Doves Cry”, de “My name is Prince” e que não evite uma lágrima em “Nothing Compares to You”, uma das poucas músicas que ele entregou para outra pessoa interpretar, no caso, a careca Sinead O’connor. E por falar em mulher, Prince sempre gostou de tê-las por perto. Nos tempos de Revolution e “Purple Rain”, dividia a cena e o palco com Wendy & Lisa, tecladista e guitarrista; com a belíssima Sheila E. percussionista da mais alta estirpe; com sua queridinha Vanity, da banda Vanity 6 e que, casualmente, morreu também aos 57 anos; com o vozeirão de Rosie Gaines no auge da New Power Generation e que deixou a banda após a tour de “Diamond and Pearls”.

800px-Prince_at_CoachellaMultinstrumentista, a faceta que sempre me impressionou foi a guitarrista. Adepto de instrumentos feitos sob medida, invariavelmente em púrpura e azul, de formas sinuosas, Prince nutria uma paixão por uma velha guitarra H.S. Anderson Mad Cat Telecaster. Ele a usou em “Purple Rain” e fez diversas aparições com o instrumento. Com ela, seu lado funky explodia. Levadas de mão direita e solos absurdamente bem construídos. Era como se Jimi Hendrix fosse da banda de James Brown ou Sly Stone. Mas era somente o baixinho de Minneapolis.

Prince esteve no Brasil uma única vez, para duas apresentações no Rock in Rio de 1991. Não o vi ao vivo. Uma pena. Só posso agradecer por tudo o que ele fez, pelo que ainda vamos conhecer dele. Ele nunca foi apenas um príncipe. Era rei e soberano em tudo.

 

 

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Sobre Daniel Soares

Jornalista e músico diletante. Fã de motocicletas e guitarras
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2 respostas para Um príncipe que era rei

  1. Perfeito Dani. Ele era demais.

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